SOBRE ANTIRRACISMO.





gota #16 — sobre ANTIRRACISMO
 



 
Eu nunca tinha ouvido falar em Antirracismo, ou acho que a palavra nunca tinha me chamado a atenção, até o mês passado. Admito que não entendi muito, por isso resolvi mergulhar no assunto e ver se tinha algo ali que dizia respeito a mim. E tinha.

Olhar para o racismo a partir deste novo lugar, que eu ainda não conhecia, tem sido desconfortável, inspirador, enriquecedor, tudo junto. Abrir os olhos e ver com mais clareza costuma ser assim, bom e ruim ao mesmo tempo.

Assim como tudo o que eu trago aqui nestas Gotas, o objetivo é mostrar assuntos que estão me inspirando e me fazendo pensar, e te convidar a pensar sobre eles comigo. Somos mais maduros quando olhamos as questões por vários ângulos e entendemos que não existe uma única verdade, mas que cabe a nós tentarmos agir de forma construtiva diante dessas questões.
Enquanto organizava os links deste Conta-Gotas, percebi que apesar de estar falando sobre Antirracismo, neste texto introdutório eu iria chamar a nossa atenção para uma coisa. Para isso, vou usar a linguagem do podcast, ok?

Estamos passando por mais um daqueles momentos da história nos quais somos convidados a rever as estruturas das nossas crenças, os ladrilhos sobre os quais construímos as nossas estradas, ou seja, a base dos nossos paradigmas. Isso significa que estamos sendo convidados a rever individualmente conceitos que irão reverberar, posteriormente, no coletivo.

O pavimento do racismo, aqui na nossa cultura, começou a ser construído pouco mais de 500 anos atrás com a escravidão, e por mais que tenhamos mudado bastante a aparência da estrada, principalmente nos últimos 150 anos, alguns dos materiais essenciais do racismo continuaram sendo usados na construção dos próprios ladrilhos. Dá para entender isso? Mesmo em menor proporção do que antigamente, essas ideias ainda servem como matéria-prima para a construção de nossa sociedade, portanto nós continuamos caminhando em cima delas.

Em outras palavras, o viés racista existe até hoje na nossa base, na nossa estrutura psicológica e social, mas passa despercebido, escondido, disfarçado de integração, de igualdade de oportunidades e direitos. É o que eu passei a entender de uns tempos para cá. Por isso, os teóricos dessa área nomeiam o racismo como sistêmico e estrutural. E como somos nós que construímos os alicerces da estrada sobre a qual as próximas gerações irão caminhar, temos a responsabilidade de atualizar o material usado na porção da estrada que nos cabe pavimentar. Por isso estamos sendo convidados a ser mais atuantes e menos passivos. Por isso nos pedem para ser antirracistas (em vez de não-racistas).

Portanto, para entrarmos em contato com os conteúdos deste Conta-Gotas, precisamos fazer um esforço a mais, já que a estrada precisa não só de novos rumos, ela precisa de novas bases. A gente precisa tirar de dentro dos ladrilhos a parte racista e substituir, neste momento, pelo antirracismo.
É normal a mente resistir a algumas destas ideias. Mudar a estrutura é sempre mais difícil do que mudar o rumo porque, para isso, é necessário des-aprender

Levamos dezenas de gerações para construir a nossa estrutura racista e muitos anos da vida de cada um de nós aprendendo a ver o mundo a partir dessa ótica. Por isso, modificar, ou melhor, atualizar esses conceitos, não é algo que você faz em 1 mês, nem em 1 ano. É uma tarefa contínua, para a qual não existe um ponto de chegada, existe apenas a eterna e mutável estrada sobre a qual estamos caminhando.

As referências que eu listo nesta edição são muito pessoais. Fazem parte dos conteúdos que têm aberto a minha mente nos últimos dois anos, desde que eu comecei a visualizar com mais clareza o racismo em mim. Isso aconteceu alguns anos depois de eu ter percebido o machismo que havia em mim, e uma coisa acabou levando à outra.

Quero deixar claro que este é um compilado feito a partir desta perspectiva que eu tenho, de uma mulher branca que está entendendo e aprendendo sobre a camada sistêmica e estrutural do racismo que, confesso, eu não enxergava muito bem até tempos atrás.

Não acho que um trabalho interno como este deva ser imposto a ninguém, nem deva causar ansiedade de performance em quem se propõe a passar por um desaprender deste tipo. A vida é um processo dinâmico de autoinvestigação e desenvolvimento, e cada um vai no seu ritmo. O trabalho é sempre interno, sempre, sempre, sempre. Foco em você, sempre. Sejamos nós, primeiro, a mudança que queremos ver no mundo.

Leiam, escutem, assistam com atenção. Anotem nos seus Cadernos de Observação os desconfortos, as ansiedades, as inspirações e insights que estes links despertam em vocês.

Desta vez eu não limitei a quantidade de links, senti vontade de colocar aqui tudo o que eu me lembrei. Se vocês tiverem outras referências, compartilhem comigo! Tenho certeza que este assunto não vai se esgotar em apenas uma edição! E, claro, repassem este Conta-Gotas para quem vocês quiserem. Informação é tudo!

Estamos em pleno processo de "atualização do sistema", e desta vez o legado vai ser deixado por nós.

VK

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