Monja Coen - O Que Faz Uma Pessoa Mudar de Verdade?

 Muito bem…

Gostaríamos de começar a lição de hoje com um ensinamento.

Buda transmitia toda sua sabedoria aos homens com lições de fácil entendimento. Isso porque as pessoas não são iguais: possuem crenças, comportamentos, desejos, pensamentos e julgamentos diferentes.

Através de contos, histórias e analogias, foi possível, ao longo da História, transmitir os ensinamentos de Buda de geração em geração, para todos os tipos de pessoas.

Certa vez, Buda disse que o ser humano poderia ser comparado a quatro tipos de cavalos.

Um cavalo que, ao ver somente a sombra do chicote, já sai galopando.

Outro, só galopa se levar uma leve chicotada em seu pelo.

No terceiro, é preciso machucar a carne. Caso contrário, ele não se move.

E o último só reage quando a dor chega ao osso.

Por exemplo, vamos supor que aconteça um terremoto no Japão. Talvez você não conheça ninguém que more lá. Mas para algumas pessoas, este tipo de situação é suficiente para despertar a reflexão: “Nossa, a vida está mesmo por um fio!”.

Este é um princípio básico de Buda. Nada é fixo. Neste plano, nossa única certeza é que tudo é impermanente.

O primeiro cavalo simboliza aquele que consegue perceber esta transitoriedade da vida como um estímulo distante, aparentemente fora de sua realidade. Ele se comove profundamente com o terremoto no Japão e desperta.

O segundo percebe a transitoriedade apenas quando algo difícil acontece com alguém conhecido. Uma pessoa que não é íntima dele, porém, próxima de alguma maneira. Alguém que está na mídia, por exemplo: um líder político, uma celebridade.

De alguma maneira, a história mexe com esta pessoa e provoca uma profunda reflexão. Então, ela começa a apreciar a existência, a viver com plenitude, com energia, a sentir prazer em estar viva. Começa, aos poucos, a perceber a mudança como algo maravilhoso. Entusiasma-se com as novidades que podem surgir a cada dia.

Percebe que cada dia é único, que nada jamais se repete. Tudo e qualquer coisa acontece uma única vez.

O nosso encontro aqui, hoje, é único. Jamais se repetirá. Você poderá voltar a ler este texto em outro momento, mas ele não será o mesmo. Você já estará diferente.

E o que fazemos com isso?

Frequentemente, deixamos de apreciar a beleza de cada momento. Pelo contrário, reclamamos. Estamos sempre com pressa. Passamos a vida esperando por um momento que não chega.

Mas ainda há o terceiro cavalo, aquele que só se movimenta quando sua carne é machucada, cortada. É necessário que aconteça algo com alguém muito próximo, muito querido.

É o sofrimento que o move.

Com esta dor tão próxima, ele acorda. Desperta. E pensa: “Nossa, o que é isso?”.

Quando alguém próximo morre, ou há uma transformação (ou término) em alguma situação de sua vida, um de seus personagens desaparece junto. Aquele papel que você exercia, de mãe, filho, esposa ou esposo, sócio, namorado ou namorada, amigo, deixa de existir.

Esta situação é intensa e forte, pois além de todo o sofrimento — causado pela perda ou mudança, ainda precisamos nos desapegar da imagem que criamos de nós mesmos.

Saiba que nenhuma posição é fixa. As coisas que adquirimos são transitórias e podem passar a qualquer momento, como as nuvens. A autoridade, a fama, os bens, o sucesso. Tudo isso passa.

Então esta pessoa começa a perceber algo mais: “Por que reclamo tanto, quando deveria estar desfrutando de minha existência? A vida é tão breve. Por que resmungo tanto, se tudo vai passar tão rápido?”.

Através do sofrimento, inicia-se a busca por mais profundidade e sentido para a vida.

Porém, existe ainda o quarto cavalo. Este simboliza a pessoa que começa a se autoperceber apenas quando uma tragédia acontece com ela.

Você já deve ter ouvido falar de pessoas que, após receber um diagnóstico terminal, despertaram para a vida. Realizaram sonhos, fizeram as pazes, perdoaram, falaram coisas que nunca tiveram coragem de falar…

De repente, torna-se muito claro como é preciosa a existência. Como a vida é efêmera. Como é bobagem se desesperar e se angustiar, se enraivecer, brigar por tão pouco.

Qual cavalo tem conduzido a sua vida?

Você percebe a riqueza de possibilidades que a vida apresenta a todos nós, todos os dias? A cada momento? Ou passa dias, e até semanas, sem notar tudo que acontece bem diante de seus olhos?

Muitas vezes, as pessoas perguntam para Monja Coen como perceber sinais do universo que avisam sobre a hora de mudar.

Quem ou o que, de fato, envia sinais para você? O que é o universo? Será que não é você mesmo, a sua mente, enviando sinais de que algo precisa ser diferente?

Recomendamos sempre a prática do zazen: a meditação.

Sente-se um pouco e perceba: o que está fazendo hoje é benéfico para você? Está dando resultados positivos para você e para as pessoas à sua volta? Seus relacionamentos estão em harmonia?

E o que você pode mudar? Como agir?

Observe, veja em profundidade. Os sinais vêm de dentro de você.

A inteligência sagrada que existe dentro de você vai revelar o que precisa ser transformado. Você só tem que estar aberto ou aberta para receber.

Não é fácil deixar de lado velhos hábitos. Eles criam marcas muito profundas em nós.

O primeiro passo é reconhecer qual é o hábito, comportamento, pensamento, sentimento ou julgamento que gostaríamos de mudar. É preciso olhar em profundidade para si mesmo e descobrir como  — e de onde — ele surge.

É preciso estar atento a cada instante. Isso se conquista com o estado de presença.

Por isso, a meditação é feita quando nos sentamos no chão, no zafu (almofada de meditação). Mas ela pode ser praticada principalmente na vida, quando percebemos, a todo momento, tudo o que está acontecendo, dentro e fora de nós.

Costumamos dizer que caímos sete vezes, e levantamos oito. Não desista, você consegue!

Aos poucos, vamos mudando. É possível encarar este processo com mais leveza. Perceber, identificar, mas não se punir e nem enxergar as coisas como malignas.

Não lutamos contra nada. Quando lutamos contra alguma coisa, manifestamos uma energia que fortalece nosso inimigo. Se lutamos contra o mal, damos poder a ele.

Se simplesmente procuramos fazer com o que bem seja visto, se temos pensamentos, palavras, atitudes que levam as pessoas — e nós mesmos — a procurar pela luz, sabedoria e compreensão, fazemos melhor trabalho ao mundo que ficar resmungando sobre o que não achamos correto.

Então, como podemos não querer destruir, matar, eliminar, mas conviver? E quando necessário, transformar aquilo que não nos faz bem?

O que você faz para que sua vida seja melhor?

Você é capaz de ver?

Fala-se que Buda vê em 360º. É claro que ele não “vê com os olhos”, porque isso seria humanamente impossível. Mas não é só com os olhos que enxergamos. Todos os nossos sentidos nos fornecem informações. Nós ouvimos, sentimos odores, gostos, temos sensações, percebemos o calor.

Há um texto lindo, chamado Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa. Ele diz que, quando alguém entra na sala, sem olhar para a pessoa, podemos descobrir se ela é homem ou mulher, jovem ou idoso. Simplesmente sentindo.

Estes poderes não são mágicos, mas comuns a todos nós. Isso se optarmos sair de nós mesmos e perceber a realidade como ela é.

Como? Com treino. Fomos treinados a partir de determinados padrões ao longo de nossa vida. Entretanto, chega um momento em que percebemos que desejamos escolher. Queremos decidir como nos treinar daqui para frente.

Tudo isso começa com uma reflexão.

O que é esta coisa extraordinária que chamamos de vida?
O que é vida?
O que é morte?
O que é o ser humano? O que é a mente humana?
Quantos níveis de consciência existem?
Consigo perceber esses níveis de consciência?

Uma dessas consciências gerencia tudo o que nos chega pelos órgãos dos sentidos. Sozinha, ela não nos serve muito.

Mas ela carrega todas essas informações para uma outra consciência, a nossa grande memória que, por sua vez, escolhe uma resposta que deseja oferecer ao mundo. Tudo isso acontece muito rápido.

Imagine só…

Às vezes, essa consciência que leva e traz comete um erro. Ela pensa que certas coisas são eternas, que este grande armazém, esta grande memória é fixa. E que precisamos reagir sempre da mesma maneira.

As memórias não são fixas, nem permanentes. O tempo todo são bombardeadas por novas informações e se transformam constantemente — assim como nós.

Às vezes não precisamos aumentar a memória do computador. A que existe hoje já não serve mais? Pois bem, todos os computadores são cópias rudimentares da mente humana, que é extraordinária e muito pouco conhecida por nós.

Através de práticas de meditação, descobrimos que podemos conhecer nós mesmos — e nossa mente — em profundidade. Estamos sempre querendo conhecer o outro, modificar o outro. Achamos que seremos felizes se o mundo e os outros forem diferentes.

Que grande ilusão! O que existe é o “nós”. Nós, seres humanos. Pertencemos à mesma espécie.

Você viu na primeira lição que Monja Coen começou esta grande revolução na maneira de pensar há muitos anos, quando ainda trabalhava como jornalista.

Ela entrevistou muitas pessoas de realidades completamente diferentes. Mas percebeu que se diferenciavam apenas na aparência, pois todas amavam e queriam ser amadas, sofriam e queriam ser aceitas, incluídas.

Em algum nível, eram todas semelhantes. Das senhoras na favelas que cozinhavam feijão na lata de leite em pó às rainhas e príncipes que entrevistou.

Somos todos semelhantes. Se pudermos acessar este nível de compreensão, a maneira de enxergar a realidade poderá ser transformada. Não existe um grupo social que seja melhor que o outro.

Existe “nós”, seres humanos, sobrevivendo. Somos os grandes sobreviventes de todas as intempéries da humanidade. O nosso DNA é o que sobreviveu, por alguma razão.

Não sabemos ao certo qual razão, apesar de alguns acharem que foram os mais fortes que sobreviveram. Será?

Talvez o mais gentil tenha sobrevivido, ou o que mais se adaptou, ou o que teve mais flexibilidade e se salvou porque se escondia, em vez de lutar. Não sabemos.

Há coisas que não podemos explicar. E precisamos explicar tudo?

A mente humana é limitada para compreender o ilimitado. O ilimitado que queremos nomear, fechar em conceitos e palavras, é maior que nossa tendência a tentar colocar rótulos ou classificar.

Temos o dever de perpetuar o DNA humano. Precisamos  perceber que somos a vida da Terra e dependemos de outras formas de vida para sobreviver.

E de repente, começamos a perceber que tudo o que existe faz parte de um equilíbrio cósmico tão importante, que dele depende a nossa própria continuidade no planeta.

Quando você pensar que não há mais esperança, que as coisas estão perdidas, respire por um segundo. Pense.

Quem escolhe as notícias internacionais que chegam ao mundo todo? Quem seleciona o que aparece na televisão? A quem interessa divulgar rebeliões? Do que estão querendo nos distrair?

Existem milhões de coisas maravilhosas acontecendo. Existem pessoas salvando umas às outras. Existem pessoas que são amigas umas das outras. Há pessoas trabalhando em área de risco, de perigo, apenas para contribuir com a humanidade.

Porém, isso não se torna visível. Ao mesmo tempo, temos uma população ficando cada vez mais depressiva e sem esperança porque o que aparece é um cenário “sem solução”. Parece que chegamos ao fim do mundo e que o ser humano não presta.

Ser humano presta. E muito. Podemos fazer coisas maravilhosas como terríveis também.

Será que você já viu esta história acontecer? É capaz de se recordar quando falhou? Quais são os comportamentos, as decisões das quais se arrepende?

Novamente: estamos todos nos transformando e aprendendo.

Um pensamento budista nos lembra que tudo o que nos acontece tem a ver com nós mesmos. Então, o que — e por que — está ocorrendo? Que coisas precisamos enxergar? Será que existe uma oportunidade disfarçada?

A pessoa que incomoda você é um ser iluminado disfarçado, que aparece em sua vida para que aprenda algo muito especial. Já pensou desta forma?

Às vezes você não percebe imediatamente, mas não desista de procurar. Observe. Há sempre uma lição escondida.

Nascemos como um pequeno ser que chega ao mundo com todas as possibilidades. Como estamos sendo treinados agora? O que escolhemos treinar a partir de hoje? O que estimulamos em nós mesmos?

Podemos escolher o que desejamos estimular, mesmo que tenhamos sido incentivados a responder de determinadas formas.

Você pode mudar isso. Está na sua mão. É a sua vida. Quem vai viver por você? Só você.

Sabe se o que vive dentro de você é verdadeiro? A verdade não está apenas nos livros. Ela está em você. Você é a manifestação da verdade do cosmos.

Não acreditamos que existam causas pelas quais valha a pena matar ou morrer. Acreditamos que vale a pena viver. Viver por aquilo que acreditamos.

Gostamos da frase de Mahatma Gandhi, muito famosa: “Nós somos a transformação que desejamos no mundo”.

Então, em vez de querer (ou esperar) que o outro se transforme, transforme-se você. Quando você se tornar um átomo de paz, de verdade, a paz começará a se manifestar a partir de você.

Cada um de nós que muda transforma tudo à sua volta.

Que saibamos despertar e amanhecer para a nova vida que nos espera. Que saibamos receber a nova consciência, o desenvolvimento do bem em nós. Que possamos perceber a verdade, a sabedoria perfeita que está presente em tudo.

Aprecie sua vida.

Que os méritos de nossa prática se estendam a todos os seres, e que possamos todos e todas nos tornar o caminho iluminado.

Monja Coen - Ansiedade

 O assunto de hoje é sobre ansiedade!

Você se sente ansioso ou ansiosa?

Não tem como escapar: ansiedade é algo que todos nós sentimos. Se alguém disser que não tem ansiedade é porque ainda não foi capaz de se perceber em profundidade.

Ela não é má, como muitos de nós pensamos. Não é algo que precise ser evitado, e sim percebido. Falamos em controlar a ansiedade, combater, vencer, enfrentar… Porém, na verdade, precisamos apenas aprender a enxergá-la melhor.

Seja qual for a situação que passemos, existe um certo grau de ansiedade que nos move.

Uma vez, Monja Coen foi visitar uma conhecida que comentou ter ficado tão ansiosa para recebê-la que se alegrou desde o dia anterior. Esta é uma ansiedade boa! Que gostoso ser recebida com tanto entusiasmo!

Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, também fala sobre isso em sua história. Na narrativa, a raposa diz ao príncipe:

Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde às três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieto e agitado: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração…

E se você não chega? E se aquilo que esperamos tão ansiosamente não chega?

Infelizmente, nem sempre conseguimos desfrutar da ansiedade positivamente.

O que deveria ser um mecanismo de motivação, de celebração, de movimento, na maior parte das vezes faz com que nos tornemos nossos maiores carrascos.

Com frequência, essa situação chega até a desencadear um processo físico de adoecimento, o que costumamos chamar de somatização.

Existem muitas causas para a ansiedade “negativa”. Desde nossos hábitos de vida, a cultura da sociedade em que vivemos, até traumas do passado, desequilíbrios hormonais, ausência de planejamento, medos, entre outros.

Pense por um momento no medo. Ele é necessário, você sabia?

O medo faz com que fiquemos mais alertas, com nossos sentidos aguçados, e tem sido fundamental para nossa sobrevivência desde o surgimento do homem. Uma pessoa que não tem medo de nada pode se machucar muito.

Apesar de nos proteger, quando se torna exacerbado, o medo origina o pânico. Ele funciona como um sinal de alerta em nossa mente, mas por algum motivo, fica defeituoso e reage a qualquer mínimo estímulo.

Esse é o medo que paralisa, assim como a ansiedade pode, muitas vezes, nos paralisar.

Você já percebeu isso acontecendo com você?

Em alguns casos, é necessário procurar um psicólogo, ou até um psiquiatra, ter acompanhamento para conseguir superar uma fase mais difícil. Você não deve sentir vergonha nenhuma se precisar pedir ajuda.

Alguns especialistas dizem, inclusive, que a ansiedade é a base da depressão. Isso porque a pessoa que é muito ansiosa não vive o momento presente, está sempre pensando no futuro, muitas vezes imaginando situações que nunca, de fato, chegarão a acontecer. Assim, ela tem mais dificuldade de celebrar a vida, pois não consegue se entregar totalmente a nenhuma situação, permanecendo com sua mente sempre distante.

Outras vezes, ainda, a pessoa se perde nas histórias do passado, repetindo frases como: “Por que isso aconteceu comigo? Não foi do jeito que eu queria! Por que foi assim?”.

Pode parecer óbvio, mas se colocar na vida com presença absoluta é o maior remédio para vencer essa situação.

Precisamos nos lembrar, todos os dias, que a vida só acontece no momento presente. O passado e o futuro são ilusões, o que existe é só o agora.

Se você pensar mais um pouco, verá que nada dura para sempre. Tudo é passageiro. A ansiedade passa. A alegria passa. O medo passa. A tranquilidade passa.

Não tenha medo do medo, nem da ansiedade. Eles fazem parte.

Perceba: onde começam? Em que pedaço do corpo você sente essas emoções? Você sente arrepio? Você sente quente e frio? Seu coração dispara? Como isso se manifesta no seu corpo?

Este é um dos processos de autoconhecimento que desenvolvemos com a prática da meditação.

Há uma ideia errônea de que meditar é cessar as atividades mentais e relaxar. Cessar atividades mentais significa morte cerebral. A meditação não é morte, pelo contrário: é vida.

As práticas meditativas não são práticas de relaxamento. O relaxamento pode acontecer como consequência, mas o objetivo da prática é estar presente e se autoconhecer.

E é exatamente isso que fará toda a diferença para você lidar melhor com tudo aquilo que tira a sua paz hoje. Mais adiante falaremos sobre isso.

Há uma história muito interessante contada por Buda. Um dia, um homem foi dormir à noite, em seu quarto, e enxergou uma cobra graças à sombra da lua que entrou pela janela.

Este homem, então, passou a noite inteira em claro, morrendo de medo de ser atacado pela cobra. Quando chegou a luz do dia, ele percebeu que a cobra, na verdade, era só um tronco.

Muitas vezes, temos medo e nos sentimos ansiosos ou ansiosas com aquilo que não conseguimos ver com clareza. Estar sempre presente ajuda a ver com clareza. E ver com clareza afasta o medo e a ansiedade.

A luz da presença é o caminho para nos libertar de muitas de nossas angústias.

Não durma com uma cobra peçonhenta. Primeiro, tenha certeza de que existe mesmo uma cobra, afinal, pode ser apenas um tronco. Em seguida, observe que há muitas maneiras de se pegar uma cobra. Se for necessário, chame ajuda. Não conviva com aquilo que é assustador para você.

O momento que vivemos atualmente, com a pandemia do coronavírus e o isolamento social, é uma situação assustadora para muitos. Percebemos que muitas pessoas têm intensificado seu estado de ansiedade.

Apesar de a situação ser real e muito séria, de nada adianta ficar pensando sobre ela e imaginando o que poderá acontecer. Mais benéfico que pensar no problema é refletir sobre a vida. A vida que existe no momento presente.

Muitos temem a morte, porém, convidamos você à reflexão: quais aspectos de sua vida precisam morrer para que possa seguir em frente, a caminho da paz interior?

Quando o mundo está de ponta-cabeça, somos convocados a buscar a sabedoria que cura e a compaixão que acalenta. Mas como levantar a cabeça? Como evitar que dificuldades, doenças e perdas nos tirem do eixo?

É importante perceber que cada adversidade revela apenas um aspecto de nós mesmos.

Quando respeitamos a realidade, assim como ela é, colocamos nossos pés no caminho iluminado.

Não controlamos a vida — somos a vida.

Como incorporar todos estes ensinamentos? Como trazer para o dia a dia a sabedoria milenar e conquistar mais paz interior?

Praticando a presença.

E um dos caminhos para reaprender a viver no presente é a meditação. Dizemos reaprender porque, em algum momento de sua vida, você já viveu assim. Quando era bebê, quando era uma criança.

Pense na leveza de uma criança, em sua pureza e inocência. A criança vive com entrega. Respeita a si mesma, é espontânea e verdadeira.

Essa sabedoria já existe dentro de você. Você apenas precisa relembrar.

Meditar representa mais uma forma de enxergar a vida que um ritual. Não está vinculada a nenhuma religião. Simplesmente fazemos uma escolha, todos os dias, de viver cada momento num estado de absoluta presença.

Na prática, o que isso significa?

Que sua mente não está ocupada remoendo situações que já aconteceram, nem preocupada imaginando coisas que ainda estão por vir. A mente se envolve apenas com o exato momento que está vivendo. Isso é meditar.

Entretanto, este não é um processo fácil. No início das práticas meditativas, começamos a perceber que a nossa mente é muito tagarela, que existem muitas palavras, pensamentos e inúmeros estímulos ao nosso redor intensificando a atividade mental.

Mesmo assim, todos nós somos capazes de atravessar esses estímulos e chegar a um estado mais profundo.

É como entrar no mar. Antes, é preciso aprender a nadar em águas mais seguras. Ao entrar no mar, começam as marolas na beira da praia. Aos poucos, você aprende a furar a onda, e depois a mergulhar em profundidade.

Essa profundidade tem os seus sons, um pouco diferentes daqueles que você está acostumado. São mais serenos. Quase como se não houvesse som. E você flutua, tudo fica leve.

A mesma coisa acontece quando entramos em práticas meditativas profundas.

Com o tempo e a prática, esse momento pode se tornar tão profundo e sereno que temos a sensação de ter silenciado a mente. Na verdade não a silenciamos, pois ela já é silenciosa em sua natureza.

Através da consciência, apenas conseguimos acessar níveis mais profundos, livres do fluxo automático de pensamentos.

Você pode iniciar com pequenos passos, introduzindo pequenos exercícios em sua rotina. Muitas vezes, as pessoas perguntam à Monja Coen: “Como aliviar o estresse em situações desafiadoras? Como manter a calma quando a vontade é explodir?”.

É preciso treinar a presença e meditar, inicialmente, em momentos mais calmos. Pense bem, ninguém aprende a nadar no mar agitado.

E se você pensa que não é capaz de meditar, você se engana. Existe uma estratégia para praticar a meditação que você pode usar todos os dias, mesmo sem perceber: a respiração.

Diferentes tradições falam sobre a respiração consciente, uma das maneiras mais poderosas de atingir um estado meditativo. Parece nada, mas é uma chave de ouro. E é possível praticar sem que ninguém note, inclusive em momentos estressantes.

Este é um conhecimento milenar, porém, mais recentemente tem despertado também a atenção da Ciência. Muitos estudos já mostram que a meditação pode diminuir o estresse e melhorar nossas habilidades para lidar com as adversidades da vida.

Se você está ansioso ou ansiosa, respire. Perceba a ansiedade. Como está seu batimento cardíaco? Houve contração muscular? O que está acontecendo no seu corpo? A respiração ansiosa é alta e ofegante. É possível, com a atenção, levar a respiração para toda a região abdominal e acalmar o corpo e a mente.

Simples e eficaz

A respiração é tão importante que sempre que a Monja Coen faz uma palestra ou atividade em público, inicia com um exercício de respiração consciente. Não é só para acalmar e envolver a plateia, mas principalmente para que ela mesma se coloque em presença.

Estamos sempre vindo de algum lugar. De outras atividades, outros ambientes, outras relações… E acabamos carregando um pouco destes locais conosco.

Quando encontramos uma nova situação, precisamos aprender a nos libertar do peso do contexto anterior. Isso porque, muitas vezes, a nossa cabeça ainda está presa nele. Então, toda vez que iniciamos uma atividade podemos usar a técnica maravilhosa da respiração consciente.

Se você estiver em uma reunião, em meio a um conflito, prestes a falar em público, diante de uma situação perigosa, em qualquer lugar, você pode fazer esta prática com uma sutileza tão grande que ninguém irá notar.

Inspire pelo nariz, segure um pouco, e solte bem devagar pela boca. Preste atenção ao ar entrando e saindo. Perceba seus pulmões se enchendo de ar. Observe o movimento de seu abdômen.

Quantos músculos, quantas células estão envolvidas nesse ato tão fantástico do corpo humano e que nos mantêm vivos!

Experimente e verá como pode fazer toda a diferença.

Insira a meditação em sua rotina através do exercício da respiração consciente. Basta parar por cinco segundos, respirar com consciência e retomar suas atividades.

Existem outras maneiras de praticar a meditação. Não gosta de ficar sentado ou sentada? Caminhe.

Faça meditação caminhando. Ande pela sala de sua casa e invoque a paz. Mentalize: “Que cada passo meu seja em direção à presença absoluta. Que me leve ao estado de tranquilidade, fazendo com que eu respire melhor e oxigene meu cérebro para estar absolutamente presente onde estou”.

Inspire e expire o ar mentalizando que você se esvazia de toda a ansiedade e pensamentos perturbadores.

Por fim, não pense que você é de ferro. Somos todos humanos.

Não queira atender todas as suas demandas de uma só vez. Desapegue-se da necessidade de fazer tudo ao mesmo tempo. Acolha seus deveres, mas um de cada vez.

Há uma história muito interessante sobre isso. Miyamoto Musashi foi um grande samurai no Japão medieval, e hoje é um dos heróis mais admirados e queridos do Japão. Quando jovem, ele era muito violento, provocando brigas e promovendo duelos por onde passava. Acabou sendo preso e ficou aos cuidados de um monge chamado Takuan Osho.

Durante os três anos de prisão, aprendeu sobre estratégias de guerra e autoconhecimento, e nunca mais foi o mesmo. Depois disso, ele começou a dizer que suas lutas eram sempre com ele mesmo. Cada adversário que encontrava era apenas um aspecto de si, que precisava ser respeitado e superado.

Certa vez, foi atacado por vinte samurais. Apesar de muito ferido, saiu vivo da batalha. As pessoas queriam saber qual era o seu segredo, a estratégia que havia usado. Ele só respondeu:

“Um de cada vez.”

Não tenha pressa de viver, a vida já está acontecendo a cada instante. Não tenha pressa de chegar a algum lugar. O único lugar que existe é onde você está, exatamente agora.

Desejamos profundamente que você consiga transformar os desafios que enfrenta hoje e se permita perceber a vida que se manifesta através de você.

No final das contas, tudo isso é sobre encontrar alegria em viver.


PINCELADAS NO INCONSCIENTE - Quando Expectativas Não São Atendidas

 Pinceladas no inconsciente Quando expectativas não são atendidas Quando se tem grande expectativa em relação a alguém e essas expectativas ...

Postagens Mais Visitadas