Gostaríamos de começar a lição de hoje com um ensinamento.
Buda transmitia toda sua sabedoria aos homens com lições de fácil entendimento. Isso porque as pessoas não são iguais: possuem crenças, comportamentos, desejos, pensamentos e julgamentos diferentes.
Através de contos, histórias e analogias, foi possível, ao longo da História, transmitir os ensinamentos de Buda de geração em geração, para todos os tipos de pessoas.
Certa vez, Buda disse que o ser humano poderia ser comparado a quatro tipos de cavalos.
Um cavalo que, ao ver somente a sombra do chicote, já sai galopando.
Outro, só galopa se levar uma leve chicotada em seu pelo.
No terceiro, é preciso machucar a carne. Caso contrário, ele não se move.
E o último só reage quando a dor chega ao osso.
Por exemplo, vamos supor que aconteça um terremoto no Japão. Talvez você não conheça ninguém que more lá. Mas para algumas pessoas, este tipo de situação é suficiente para despertar a reflexão: “Nossa, a vida está mesmo por um fio!”.
Este é um princípio básico de Buda. Nada é fixo. Neste plano, nossa única certeza é que tudo é impermanente.
O primeiro cavalo simboliza aquele que consegue perceber esta transitoriedade da vida como um estímulo distante, aparentemente fora de sua realidade. Ele se comove profundamente com o terremoto no Japão e desperta.
O segundo percebe a transitoriedade apenas quando algo difícil acontece com alguém conhecido. Uma pessoa que não é íntima dele, porém, próxima de alguma maneira. Alguém que está na mídia, por exemplo: um líder político, uma celebridade.
De alguma maneira, a história mexe com esta pessoa e provoca uma profunda reflexão. Então, ela começa a apreciar a existência, a viver com plenitude, com energia, a sentir prazer em estar viva. Começa, aos poucos, a perceber a mudança como algo maravilhoso. Entusiasma-se com as novidades que podem surgir a cada dia.
Percebe que cada dia é único, que nada jamais se repete. Tudo e qualquer coisa acontece uma única vez.
O nosso encontro aqui, hoje, é único. Jamais se repetirá. Você poderá voltar a ler este texto em outro momento, mas ele não será o mesmo. Você já estará diferente.
E o que fazemos com isso?
Frequentemente, deixamos de apreciar a beleza de cada momento. Pelo contrário, reclamamos. Estamos sempre com pressa. Passamos a vida esperando por um momento que não chega.
Mas ainda há o terceiro cavalo, aquele que só se movimenta quando sua carne é machucada, cortada. É necessário que aconteça algo com alguém muito próximo, muito querido.
É o sofrimento que o move.
Com esta dor tão próxima, ele acorda. Desperta. E pensa: “Nossa, o que é isso?”.
Quando alguém próximo morre, ou há uma transformação (ou término) em alguma situação de sua vida, um de seus personagens desaparece junto. Aquele papel que você exercia, de mãe, filho, esposa ou esposo, sócio, namorado ou namorada, amigo, deixa de existir.
Esta situação é intensa e forte, pois além de todo o sofrimento — causado pela perda ou mudança, ainda precisamos nos desapegar da imagem que criamos de nós mesmos.
Saiba que nenhuma posição é fixa. As coisas que adquirimos são transitórias e podem passar a qualquer momento, como as nuvens. A autoridade, a fama, os bens, o sucesso. Tudo isso passa.
Então esta pessoa começa a perceber algo mais: “Por que reclamo tanto, quando deveria estar desfrutando de minha existência? A vida é tão breve. Por que resmungo tanto, se tudo vai passar tão rápido?”.
Através do sofrimento, inicia-se a busca por mais profundidade e sentido para a vida.
Porém, existe ainda o quarto cavalo. Este simboliza a pessoa que começa a se autoperceber apenas quando uma tragédia acontece com ela.
Você já deve ter ouvido falar de pessoas que, após receber um diagnóstico terminal, despertaram para a vida. Realizaram sonhos, fizeram as pazes, perdoaram, falaram coisas que nunca tiveram coragem de falar…
De repente, torna-se muito claro como é preciosa a existência. Como a vida é efêmera. Como é bobagem se desesperar e se angustiar, se enraivecer, brigar por tão pouco.
Qual cavalo tem conduzido a sua vida?
Você percebe a riqueza de possibilidades que a vida apresenta a todos nós, todos os dias? A cada momento? Ou passa dias, e até semanas, sem notar tudo que acontece bem diante de seus olhos?